A nossa relação com Balarama

Por Tridandisvami Sri Srimad Bhaktivedanta Narayana Maharaja
27 de abril de 2002

[Em 2017, o Aparecimento do Senhor Balarama é comemorado em 07 de agosto, último dia do festival de Jhulana-yatra. Leia abaixo uma aula ministrada por Srila Bhaktivedanta Narayana Gosvami Maharaja na qual ele glorifica o Senhor Balarama e explica com perfeição a nossa relação com Ele.]

Krishna e Balarama
Krishna e Balarama

Hoje é um dia muito auspicioso, pois há a junção de dois tithis (dias) muito sagrados: Purnima e o dia do aparecimento de Baladeva. Hoje também encerra-se Jhulana-yatra, que vem acontecendo há um mês desde o início de Sravana. Ao término, todos os Vrajabasis ficam muito tristes, e Baladeva Prabhu aparece neste dia para deixá-los felizes.

Declarações conclusivas sobre controvérsias

Alguns Vrajabasis acreditam que Baladeva apareceu depois de Krishna. Eles dizem que Krishna apareceu em astami, o oitavo dia da lua, e Baladeva apareceu após Krishna em catra, após o sexto dia da lua. No entanto, Srila Jiva Goswami, Srila Sanatana Goswami, Srila Rupa Gowvami e todos os nossos Goswamis discordam. Eles explicam que se Baladeva tivesse aparecido após o sexto dia da lua, Krishna seria mais velho que Baladeva Prabhu em muitos dias. Ou, se Baladeva tivesse aparecido um ano antes, Ele seria quase um ano mais velho que Krishna. Portanto, Jiva Gosvami afirma em seu Vaisnava Tosani que, de acordo com o Srimad Bhagavatam, Krishna e Balarama foram ambos nomeados por Gargacarya no mesmo dia, engatinharam ao mesmo tempo, sua annaprasana (cerimônia de ingestão de mahaprasada no sexto ou oitavo mês após o nascimento) foi realizada no mesmo dia, e todo o seu desenvolvimento físico ocorreu na mesma época. Após Krishna nascer em Gokula, Baladeva o viu, e foi assim que Seus olhos se abriram pela primeira vez. Quando mãe Yasoda e Rohini Ma colocaram ambos no mesmo balanço, ambos sentiram muito prazer ao ver um ao outro.

Alguns dizem que Baladeva Prabhu e Krishna nasceram em Mathura, mas essa é uma compreensão de pessoas comuns, não de rasika e tattva-jnana bhaktas. Eles possuem uma opinião diferente. O Srimad-Bhagavatam e o Hari-vamsa afirmam que Devaki é outro nome para Yasoda. Isso está escrito em muitos Puranas, e especialmente no Hari-vamsa.

Não houve nenhum nascimento em Mathura. Krishna apareceu em Mathura como Visnhu, como Parambrahma, como um jovem de dezesseis anos. Ali, Ele apareceu na forma de Vasudeva, com quatro braços e segurando Sua sanka, gada, chakra e padma. Ele tinha um cabelo longo e ondulado. Ele usava uma sarana-makuta (uma coroa de ouro) e estava adornado com ornamentos de ouro. Bhagavan jamais nasce, mas Krishna não é apenas Bhagavan, Ele é Svayam Bhagavan. Srila Visvanatha Cakravarti Thakura escreveu um sloka que revela a opinião de Sri Caitanya Mahaprabhu: “Aradhyo bhagavan vrajesa-tanayas tad-dhama vrndavana.” Primeiramente, Krishna é Vrajendra-nandana, o filho de Nanda Maharaja, e Ele é nosso aradhya, a deidade suprema adorável. Tad-dhama vrndavanam. Sua morada, Vrndavana, é igualmente adorável. O Senhor Sri Krishna e Sua morada, Vrndavana, são igualmente adoráveis.

O Senhor Balarama com suas esposas Varuni e Revati, Tota Gopinatha Mandir
O Senhor Balarama com suas esposas Varuni e Revati, Tota Gopinatha Mandir

Essa é a ideia de Chaitanya Mahaprabhu. Krishna não é filho de Vasudeva e Devaki. Ele é filho apenas de Yasoda e Nanda Baba. Vrajesa-tanayas significa Nanda Baba. Nosso aradhyadeva é Krishna e Ele nasceu em Gokula.

Assim como Krishna nasceu em Gokula, Baladeva Prabhu também nasceu. Em parte, Ele apareceu no ventre de Devaki, mas ‘no todo’ Ele nasceu do ventre de Rohini, em Gokula.  Rohini devi era uma das muitas esposas de Vasudeva em Mathura. No Gopala Campu afirma-se que quando Vasudeva e Devaki foram presos por Kamsa, ela costumava ocasionalmente visitá-los e servi-los. Em uma dessas visitas ela engravidou, bem como Devaki na mesma época. O mula, original e completo, Balarama adentrou o seu ventre, e Sua porção plenária o ventre de Devaki. Após dois ou três meses, a fim de proteger Rohini contra as atrocidades de Kamsa, Vasudeva a enviou para Vrindavana com o propósito de viver na casa de Nanda Baba e Yasoda; Yogamaya o inspirou a fazer isso. Após a expansão plenária de Balarama entrar no ventre de Devaki por seis meses, Yogamaya o removeu dali para Gokula, onde ela o colocou no ventre de Rohini, e tanto a porção plenária como o Balarama original ali se fundiram. Parecia, e assim todos pensavam, que Devaki havia sofrido um aborto, mas na verdade, aquela porção apenas havia sido transferida para o ventre de Rohini. Tal como o imã atrai o ferro, o Baladeva original atraiu a Sua própria expansão. Após oito meses, Rohini gerou o seu filho e, portanto, ao todo, Sri Baladeva permaneceu em seu ventre por quatorze meses.)

Após Krishna aparecer como Vasudeva (Sua expansão plenária de quatro mãos em Mathura), Vasudev e Devaki oraram a Ele, “Por favor, apareça como um bebê, e então poderemos tentar salvá-lo de Kamsa.” Naquela época, Krishna que havia nascido do ventre de Yasoda, foi até Mathura e fundiu-se a chatur-buja Krishna (quatro mãos) e ambos se misturaram. Vasudeva levou esse bebê para Gokula e lá o deixou, e pegou Yogamaya [a irmã de Krishna, que também havia nascido do ventre de Yasoda juntamente com Ele]. Similarmente, devemos saber que a expansão plenária de Baladeva Prabhu, filho de Rohini, estava presente no ventre de Devaki, e por providência de Yogamaya, foi levada até Gokula. Ambos se ‘misturaram’, como Rohini-nandana.

Balarama sempre pensou, e Ele estava neste humor, de que Seu pai era Nanda Baba – não Vasudeva Maharaja. Ele nunca pensou, “Eu sou o filho de Devaki e Vasudeva.” Mula Sankarsana é Baladeva em Dvaraka ou Mathura. Baladeva em Gokula ou Vraja não é Mula-Sankarsana; Ele é diferente. Em tattva, ambos são um, mas pela rasa-vicara (consideração com base em rasa), Eles não são um. Quando Krishna apareceu em Mathura, Ele não era o Krishna original, e sim Vasudeva-nandana. Da mesma forma, quando Baladeva apareceu em Mathura, Ele não era Rohini-nandana, mas sim Mula-Sankarsana. Em Dvaraka e Mathura Ele é Mula-Sankarsana, uma manifestação parcial de Baladeva Prabhu. A partir dEle, Maha-Sankarsana em Vaikuntha se expande, e dEle, Karanadakasayi Visnu surge. De Karunadakasayi Visnu, surge Garbodakasayi, e de Garbodakasayi surge Khirodakasayi Visnu. A última fração de Maha Sankarsana é Ananta Sesa. Todas essas expansões possuem o humor de servir a Krishna, e assim estão lhe servindo.

Yasoda e Krishna
Yasoda e Krishna

Baladeva e Krishna são os mesmos

Não há nenhuma diferença entre Krishna e Baladeva. Krishna é Svayam-rupa, e Baladeva Prabhu também – mas ainda Ele é a manifestação ou prakasa de Krishna. Há apenas uma diferença na cor e na parafernália. Baladeva jamais carrega Sua hala e mussala, arado e maça, em Vraja; e Krishna jamais carrega alguma arma ali. Ele carrega apenas Sua vamsi, e Baladeva Prabhu apenas Seu sringar (chifre de búfalo). Às vezes, Baladeva também carrega uma vamsi, mas não é importante para Ele. Krishna também carrega um sringar, mas a vamsi que é importante para Ele. Através dessa vamsi, Krishna executa a rasa-lila e todos os passatempos semelhantes.

Baladeva não carrega o arado ou a maça porque não há utilidade para eles em Vraja, onde todas as Suas lilas são madhura, doces. Ele não é casado em Vraja e Krishna também não é casado – abertamente. Os dois apenas desempenham Suas doces lilas. No entanto, em Dvaraka, é onde Vasudeva-nandana e Devaki-nandana aparecem. ‘Vrndavana parityaja padam ekam na gacchati.’ E não somente a parte de Krishna, mas também a de Baladeva Prabhu, que aparece ali. Baladeva Prabhu também jamais deixa Vrindavana. Ele sempre vive em Vrndavana.

Baladeva é sat

Krishna é composto por sat, cit e ananda. O significado de sat é sattva, a potência de existência. Cit aqui significa bhava, emoções amorosas transcendentais manifestadas nas cinco rasas. Em um sentido comum, é tirada de jnana, conhecimento; mas não há nenhum jnana nesse sentido em Vrindavana. No Srimad Bhagavatam afirma-se:

jnane prayasam udapasya namanta eva
jivanti san-mukharitam bhavadiya-vartam
sthane sthitah sruti-gatam tanu-van-manobhir
ye prayaso ‘jita jito ‘py asi tais tri-lokyam

[“Meu caro senhor, os devotos que se livram da concepção impessoal da Verdade Absoluta e abandonam discussões sobre as verdades filosóficas empíricas devem ouvir dos devotos autorrealizados sobre o Seu santo nome, forma, passatempos e qualidades.”]

Se vocês desejam servir Krishna e Srimati Radhika em Vraja-bhava, precisarão abandonar jnana. Precisam tentar ouvir apenas os passatempos de Krishna, lembrar-se deles, e cantar os nomes de Krishna e Radhika. Caso contrário, se não tiverem ekanthika, não forem resolutos, não conseguirão se aproximar de Vraja. Após tattva-jnana tornar-se bhava, essa bhava poderá alcançar Vrindavana, e poderemos servir em Vraja com essa bhava. Em um sentido comum, jnana está relacionado apenas a Brahman. Aqueles que são jnanis consideram a si mesmos como Brahman. Quando jnana é tattva-jnana, realização de Bhagavan, é possível ir para Vaikuntha, mas não para Vrindavana.  Aqui jnana (como cit) significa a bhava experimentada nas cinco rasas: santa, dasya, sakhya, vatsalya e madhurya. Isso é chamado de samvit, a potência de conhecimento, a potência através da qual Krishna conhece a Si mesmo e através da qual os outros O conhecem.

A essência ou a soma e substância de hladini é chamada de prema, e o prema personificado é Srimati Radhika.

Baladeva Prabhu é adhhisthatri-devata, a deidade predominante, de sat, sattva ou sandini. Krishna é o adhisthatri-devata de cit, ou seja, jnana e bhava juntos, e Srimati Radhika é a adhisthatri-devi de hladini.

Krishna, Balarama, Radha e as gopis
Krishna, Balarama, Radha e as gopis

Sat-cit-ananda. Sat é a potência de existência. A jiva também é sempre existente, mas Baladeva é o mestre de todas. Ele é a personificação de sat; Ele é a potência original de existência. Nós vemos Krishna, vemos Sua vamsi, vemos todos os Vrajabasis, vemos todo o mundo, e também as jivas. Tudo é expansão de Baladeva Prabhu. Krishna, com Baladeva e Radharani, é Vrajendranandana Syamasundara. Sem Baladeva não haveria nenhum passatempo de Radha-Krishna e das gopis, e não haveria a terra de Vrindavana, pois Ele é a potência de existência. Todos os associados de santa, dasya, sakya e vatsalya rasas são manifestações de Baladeva. A respeito de madhurya-rasa, as gopis que são kayavyuha-rupa, manifestações corporais de Srimati Radhika, são Suas manifestações. Baladeva serve em todas as rasas, mas não em sringara ou madhurya-rasa. Para servir nessa rasa, Ele assume a forma de Ananga Manjari.

Nossa causa raiz é Baladeva

A raiz e a causa de todas as jivas é Baladeva Prabhu. Em Vraja, as jivas se manifestam a partir do Baladeva original. Elas jamais vem a este mundo. Elas sempre servem Radha e Krishna em madhurya-rasa ou sakhya-rasa. De Baladeva surge Sankarsana em Dvaraka. Asanka (inumeráveis) jivas surgem de Baladeva na Sua forma como Mula Sankarsana, e elas servem Dvarkadhisa e Mathuresa Krsna de diversas formas. De Mula Sankarsana surge Maha Sankarsana em Vaikuntha. Ali, Ele manifesta as mukta-jivas, que servem eternamente Rama, Nrsmha, Kalki, Vamana, Narayana e todas as outras encarnações svansa. De Maha Sankarsana surge Karanodakasayi Visnu na região tatastha, e Ele manifesta as tatastha-jivas. Algumas delas se tornam livres de maya e outras se tornam baddha-jivas, almas condicionadas. Dessa forma, é possível entender que todos os tipos de jivas originam-se de Baladeva. Embora assim seja relatado nas escrituras, na verdade, as jivas não nascem. Elas são eternas, assim como o próprio Baladeva Prabhu. Isso é expresso dessa forma para convencer as jivas comuns, as almas condicionadas. Há muitas coisas expressas no sastra que em Goloka Vrindavana dhama são vistas de forma diferente.

Gaura Premanande

[Observação adicional: Há quem diga que Baladeva esteve no ventre de Rohini em Mathura, e portanto, nessa época Ele estaria fora de Vrindavana. Mas isso não é verdade. Rohini é uma visuddha Vrajabasi. Ela sempre tem consciência de que, “Eu sou uma Vrajavasi.” Mesmo que Nanda Baba e os vaqueirinhos estejam em Mathura com Krishna, eles ainda estão em Vrindavana, pois essa é a sua consciência. Yogamaya Paurnamasi aparentemente vivia em Ujjain antes de se mudar para Vrindavana, mas na verdade, ela é uma eterna visuddha Vrajabasi. Rohini aparentemente veio de Mathura, mas ela também é uma eterna visuddha Vrajabasi. Portanto, quando Rohini-nandana Baladeva apareceu no seu ventre, Ele estava em Vrindavana. – Madhava Maharaja]

Tradução: Madhukari Radhika Devi Dasi
Fonte: Pure Bhakti