Aparecimento do Senhor Balarama

Por Tridandisvami Sri Srimad Bhaktivedanta Narayana Maharaja
15 de agosto de 2000
Vrndavana, Índia

Senhor Balarama
Senhor Balarama

Vocês já conhecem o passatempo no qual Sri Baladeva mata Romaharsana Suta, mas sabem por que Ele o fez? A verdade é que Romaharsana Suta jamais honrou nem um devoto. Ele pensava, “Eu sou o maior de todos. Eu sou o guru de todos os 88 mil rsis reunidos aqui! Havia milhares de devotos presentes que eram superiores a ele, mas ele jamais lhes ofereceu respeito.

Baladeva sabe tudo, e portanto, Ele também sabia disso e, certa vez, decidiu testá-lo. Como Romaharsana Suta estava acostumado a não honrar nenhum Vaisnava por se julgar superior a todos, ele também não honrou Baladeva Prabhu após Sua chegada. Ele era incapaz de ficar de pé e oferecer pranamas. Pessoas assim não são qualificadas para dar nem para ouvir hari-katha. Então Baladeva Prabhu o interrompeu imediatamente dizendo, “Tolo, você não respeita nenhum devoto, e se julga superior a eles porque está dando hari-katha e eles estão ouvindo.”

Ele jamais havia oferecido pranama a sua audiência. Oposto a isso, Prabhupada Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura costumava oferecer pranama a toda a sua audiência. Por sentir que eles eram proeminentes, dizia-lhes, “Se vocês não estivessem aqui, eu não poderia dar hari-katha para ninguém. Vocês são meus vipada uddharana bandhu. Vocês são meus amigos que estão me salvando de um grande perigo.” Se alguém ao dar hari-katha pensa, “Ninguém aqui sabe nada”, o que seria isso? Isso é uma ofensa.

Mesmo que uma certa pessoa não esteja dando hari-katha, ainda assim ela pode ser tão qualificada quanto Srila Haridasa Thakura ou Srila Gaurkisora dasa babaji. Ela pode ser lakhs vezes superior à pessoa que está dando hari-katha. Aqueles que saboreiam Vaisnava seva, harinama e ouvem hari-katha possuem mais sukriti do que qualquer outra pessoa. Às vezes, negligenciamos isso, mas devemos tentar não agir assim.

Baladeva Prabhu também matou Dvivida bandara (gorila) em Dvaraka. Dvivida bandara estava presente na época de Rama. Ele o serviu muito, e o ajudou a lutar contra Ravana. No entanto, ele jamais honrou Laksmana. Ele pensava, “O Que Laksmana fez? Nada.” Ele não entendia que Laksmanji estava sempre servindo Rama, e na verdade, Ele era o próprio Rama.

Dvivida viveu por tanto tempo que ainda estava vivo na época de Krishna. No entanto, por ter a má associação de Bhaumasura, Maya Dhanava, Kala Yavana, Jarasanda, e de todos os outros demônios, ele ficou cada vez mais estúpido. Ele começou a encontrar em todos os lugares, em todos os devotos, alguma brecha ou falha para criticá-los. E novamente encontrou uma ‘falha’ em Laksmana, agora sob a forma de Baladeva Prabhu. Ele se despiu e começou a exibir o seu corpo para as jovens mulheres com quem Baladeva estava desfrutando passatempos. Nessa condição, ele começou a criticar Baladeva dizendo, “Como vocês podem respeitar Balarama? Ele é um lampata, uma pessoa muito luxuriosa. Ele tem Revati como Sua esposa, e é muito apegado a ela.”

Nityananda Prabhu como Balarama
Nityananda Prabhu como Balarama

Qualquer um pode se tornar assim caso se associe com aqueles que criticam Vaisnavas. Esse tipo de pessoa não tem olhos para enxergar as qualidades dos Vaisnavas. Até mesmo um kanistha é superior a ela. É necessário ser muito humilde com todos, e especialmente não observar falhas ou ‘brechas’ em nenhum Vaisnava. Se começarmos a fazer isso, ficaremos igual ao gorila Dvivida. Começaremos a buscar falhas em nosso guru, e também em akhanda-guru-tattva, ou seja, Balarama ou Nityananda Prabhu. Mesmo aqueles que foram mortos por Baladeva prabhu, como Dvivida bandara e Romaharsan Suta, são afortunados. Nós estamos em uma situação muito pior que a de Dvivida e Romaharsana Suta, pois não temos a oportunidade de sermos mortos por Baladeva. Não somos tão afortunados, e ainda cultivamos muitas
aparadhas.

O que Baladeva Prabhu faz? Ele ara. Por que ele ara? Ele cultiva. Em Vraja, Ele cultiva o campo das entidades vivas eternas, as jivas. Ele as prepara e as produz. Ele cria ou manifesta sandhini-sakti.

Então, em Vaikuntha, na forma de Maha Sankarsana, Baladeva cultiva o campo dos associados eternos de Vaikunthadipati, ou seja, Narayana. Como Karanodakasayi Visnu, Baladeva cultiva (cria) toda as entidades vivas tatastha-sakti, aquelas que estão aptas para irem para a morada espiritual e para a morada material.

Krishna é sac-cid-ananda-vigraha. Essa palavra é composta por três palavras: sat, cit e ananda. O próprio Krishna é considerado como sendo a Deidade predominante de cit. Cit significa jnana, que quando condensado, ou intensificado, transforma-se em bhava; e essa bhava eleva-se ao estágio de mahabhava. Baladeva Prabhu é a deidade predominante de sat. Sat significa existência, e toda a existência vem de Balarama Prabhu. Mesmo a existência do corpo de Krishna é oriunda de Balarama. Radharani é a Deidade predominante de ananda, e todas essas três potências sat, cit e ananda estão em Krishna.

Ainda que elas estejam juntas em Krishna, elas também estão separadas. Essa é a potência inconcebível de Krishna. Toda e cada potência de Krishna pode assumir uma forma separada. Sua drsti, Sua visão, também torna-se personificada. Sua capacidade de ver é Sua potência, e ela também pode assumir uma forma. No nosso caso, essa potência é invisível, mas no caso de Krishna, essa mesma potência pode assumir uma forma. Drsti, a potência da visão, também se torna personificada. Isso também acontece com Radharani, Sua rupa é Rupa Manjari e Sua visão é Nayana-mani Manjari. Dessa forma, ainda que as potências sac-cid-ananda estejam em Krishna, ao tomarem forma se tornam Balarama e Radharani.

Assim como Ananga Manjari, Balarama serve Radharani na doçura conjugal. No Radha Kunda, o kunja central e mais importante é o Svananda sukadha kunja. Ele pertence a Ananga Manjari, e ali ela sempre organiza belas parafernálias para os passatempos de Radha-Krishna.

Em Rama-lila, este mesmo Baladeva era Laksmana, onde foi forçado a executar muitos tipos de passatempos a contragosto. Naquela ocasião, Ele era o irmão mais novo, e não podia argumentar nada com Seu irmão mais velho. Certa vez, ele teve que executar um teste de fogo para Sita, e foi obrigado a bani-la. Em Gaura-lila Ele retorna como o Senhor Nityananda, o irmão mais velho, e não mais o caçula, e quebra a ekadanda de Mahaprabhu.

Às vezes Baladeva Prabhu aparece negro. Por que? Quando Ele veio de Dvaraka e encontrou as gopis muito absortas em Krishna, Ele também começou a sentir a separação de Krishna, absorvendo-se Ele próprio nEle, e assumindo a Sua tez negra.

Respeite todos os Vaisnavas e desenvolvam a sua tendência de servir. Tentem servir todo e qualquer Vaisnava. Cultivem esse gosto de servir. Jagannatha dasa Babaji Maharaja ocupou alguns dos seus discípulos no cultivo de sementes de berinjela. Por que? Porque eles não conseguiam cantar durante todo o dia. Eles queriam muito aprender com ele, mas após aceitá-los como discípulos, ele os ocupou no cultivo de uma horta. Durante uma visita de Srila Bhaktivinoda Thakura, eles reclamaram, “Jagannatha dasa Babaji Maharaja é tão próximo de você. Pergunte a ele algo para nós. Nós deixamos nossas casas para aprender um pouco sobre a consciência de Krishna e para cantar e ouvir hari-katha. Em vez de nos dar hari-katha, ele nos pediu para cultivar esta horta.” Srila Bhaktivinoda Thakura pensou e respondeu, “Ele agiu da forma correta. Essa é sua bhakti, esse é seu cultivo da consciência de Krishna. Uma vez que não somos capazes de continuar cantando durante todo o dia, precisamos trabalhar, e devemos servir de acordo com as instruções dadas pelos Vaisnavas e por Gurudeva.”

Krishna e Balarama
Krishna e Balarama

Hoje também é Raksa-bandhana. Nós amarramos uma rakhi (uma pulseira de tecido fina) a Krishna. Antigamente este festival era praticado de uma forma diferente. Nós amarramos a rakhi a Krishna, ou a Balarama para que Eles nos protejam. Eles são os nossos verdadeiros protetores. Anantadeva é nosso verdadeiro protetor. Esse é o propósito deste festival.
Durante o reino do líder Muhammedan, os Muhammedans cometiam muitas atrocidades contra as mulheres indianas. Então muitas mulheres indianas começaram  aceitar reis poderosos como seus protetores. Elas enviavam sua rakhi para eles e diziam, “Por favor, amarre esta rakhi e nos proteja.” Desde então esse festival vem sendo realizado: uma irmã amarra uma rakhi ao redor do pulso de um irmão para protegê-la. No entanto, o protetor não é de fato um irmão. Ele na verdade é Balarama. Nós também podemos considerar Gurudeva nosso protetor de atividades e mentalidades indesejadas, aparadhas etc.

Nós podemos amarrar essa rakhi a Gurudeva, e devemos carregar em nosso coração a crença de que para servir nosso Gurudeva somos capazes de matar o mundo todo. Não é que realmente vocês irão matar o mundo todo, mas tenham essa emoção e sentimento em seus corações. Sem guru-nistha não é possível progredir. Isso não significa que por eu ser o seu guru irei lhes pedir e convencê-los a me servir, mas isso é o que vejo em nosso guru parampara. Srila Prabhupada costumava dizer sobre Srila Gaura Kisora dasa Babaji Maharaja: “Quando me aproximei dele para receber iniciação, ele me recusou. Ele usou como pretexto que eu tinha muito conhecimento, mas na verdade o que ele queria me dizer era, ‘Você se sente muito orgulhoso por ser tão erudito.’ Ele queria era destruir o meu orgulho, e então se recusou a me iniciar. Todo o meu orgulho entrou em colapso e comecei a jejuar. Eu jurei, ‘Eu vou morrer agora mesmo. Eu vou morrer.’ E então ele me deu iniciação.”

Da mesma forma, meu Gurudeva serviu fervorosamente Prabhupada. Certa noite ele transformou um cemitério em um jardim. Sempre que ia falar sobre seu Gurudeva ele não conseguia proferir as palavras ‘Srila Prabhupada’, e chorava amargamente. Vemos que isso não ocorre conosco. Ele era muito dedicado ao seu Gurudeva.

Se alguém critica o Guru e o discípulo permanece quieto, essa pessoa não passa de um eunuco impotente. Quando nosso Gurudeva começou o Ratha-yatra em Navadvipa, ninguém o criticou. No entanto, após ele deixar este mundo, um devoto muito avançado criticou o Ratha-yatra em Navadvipa. No dia em que ouvi isso, não consegui dormir à noite, pois fiquei muito agitado e inquieto. Logo depois escrevi um artigo em nossa revista e isso criou um grande caos e agitação no lado oposto. Então houve uma briga que perdurou um ano inteiro. Se não fazemos tais coisas, não estamos fazendo mano-bhista seva, serviço ao desejo mais íntimo do coração de Sri Gurudeva. Devemos estabelecer os princípios de nosso Gurudeva, e quando uma oposição surgir, devemos derrotá-la.

Tradução para o inglês: Sripad Ramacandra dasa Adhikari
Tradução: Madhukari Radhika Devi Dasi
Fonte: Pure Bhakti