Os ensinamentos de Rupa Goswami

Extraído de “Sri Chaitanya: His Life & Associates” por Srila Bhakti Ballabh Tirtha Maharaj

[Em 2017, o divino desaparecimento de Srila Rupa Goswami é comemorado em 04 de agosto.]

Sri Chaitanya Mahaprabhu e Srila Rupa Goswami
Sri Chaitanya Mahaprabhu e Srila Rupa Goswami

Através de Rupa Goswami, Mahaprabhu ensinou ao mundo os passatempos de Krishna em Vrindavana e o processo para alcançá-Lo. Krishnadas Kaviraj Goswami escreve, “Através da misericórdia de Sanatana aprendi as doutrinas devocionais, enquanto pela graça de Rupa fui capaz de descobrir a extensão da estética divina da devoção.” (Chaitanya Charitamrita 1.5.203)

O Senhor ensinou sobre o êxtase sagrado e os passatempos amorosos em Vraja através de Rupa Goswami. Quem seria capaz de descrever tão bem as sutilezas da lila de Sri Chaitanya Mahaprabhu? (Chaitanya Charitamrita 3.5.87)

vrndavaniyam rasa-kelivartam
kalena luptam nija-saktim utkah
sancarya rupe vyatanot punah sa
prabhor vidhau prag iva loka-srstim

Assim como o senhor iluminou o coração do Senhor Brahma com os detalhes da criação e assim possibilitou a manifestação do Cosmos, Sri Chaitanya Mahaprabhu impregnou avidamente o coração de Rupa Goswami com potência espiritual para que ele pudesse reviver os passatempos de Krishna em Vrindavana que praticamente haviam desaparecido da memória. (Chaitanya Charitamrita 2.19.1)

Ainda em Prayag, Mahaprabhu ordenou diretamente a Rupa Goswami que escrevesse o Bhakti-rasamrta-sindhu. Rupa escreve sobre isso nos versos introdutórios da obra:

hrdi yasya preramaya pravartito’ham varaka-rupo’ pi
tasya hareh pada-kamalam vande caitanya-devasya

Eu adoro os pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, conhecida como Senhor Chaitanya-deva. Inspirado por Ele escrevo esse livro, apesar de não passar de um coitado ignorante. (Brs 1.1.2)

Uma conexão especialmente relevante é encontrada no comentário de Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Goswami Thakura sobre a importância de estudar e escrever livros como um elemento da prática devocional: “Os Goswamis tiveram uma vida renunciada exemplar. Em alguns momentos eles se empenhavam no canto dos Santos Nomes do Senhor, em outros em adorá-Lo escrevendo livros sobre a estética divina, e ainda em outros relembravam ou glorificavam o Senhor Chaitanya Mahaprabhu.

Esta é uma ideia recorrente entre os prakrta-sahajiyas, de que a prática devocional implica a renúncia aos estudos e a escrita das escrituras devocionais, onde qualquer tipo de estudo das escrituras deve ser interrompido para que seja possível alcançar um estado de ignorância. Aqueles que seguem os passos de Rupa Goswami não tem paciência para lidar com essas ideias. No entanto, se um praticante estudar ou escrever escrituras devocionais com o intuito meramente financeiro para satisfazer os seus sentidos materiais ou alcançar a fama, respeito ou qualquer tipo de objetivo insignificante e superficial classificado como distrações ou ervas daninhas no serviço devocional, ele não alcançará os resultados auspiciosos que são o fruto real desse tipo de atividade. Um verdadeiro Rupanuga não possui nenhuma ambição lucrativa em relação a resultados tão mesquinhos.” (Anubhasya, 2.19.131)

Sri Caitanya Mahaprabhu
Sri Chaitanya Mahaprabhu

Enquanto Mahaprabhu instruía Rupa Goswami a respeito do seu livro sobre o êxtase sagrado, ele descreveu as características das diferentes doçuras, e mostrou a ele como obter o sabor do oceano insondável do êxtase sagrado, e descreveu como foi difícil alcançar o serviço devocional a Krishna. A jiva ou entidade viva é uma faísca atômica de energia consciente.

Há inúmeras jivas, e elas se dividem em duas categorias: móveis e imóveis. Aquelas que possuem mobilidade dividem-se em três: as que se movem sobre a terra, ar ou água. Entre aquelas que vivem na terra, um pequeno número são seres humanos, dos quais apenas uma minoria aceita os princípios Védicos. Párias como Pulindas, Mlecchas, Savaras e budistas são a maioria. Entre aqueles que aceitam os Vedas, alguns o fazem apenas por aparência e se envolvem em atividades pecaminosas. Aqueles que praticam os princípios védicos são a minoria. Os envolvidos em práticas religiosas para algum fim lucrativo representam a maioria desse grupo.

Entre milhões de seguidores karma-nistha dos Vedas, um deles pode alcançar o nível de conhecimento espiritual; contudo, apenas um dos muitos milhões de tais jnanis será uma alma realmente liberada. E entre milhões de almas liberadas, ainda será difícil encontrar um devoto de Krishna. A devoção a Krishna é tão rara que somente acontece quando um determinado mérito é alcançado através de uma grande boa fortuna. A semente da trepadeira devocional surge através da misericórdia do Senhor e do Seu devoto. A trepadeira da devoção em êxtase espontâneo não floresce em qualquer lugar deste mundo, nem mesmo em Vaikuntha no mundo espiritual, e sim apenas em Vrindavana aos pés de lótus de Krishna. Os pés de Krishna são como a árvore de realização dos desejos ao redor da qual a videira da devoção se envolve e dá frutos. Isso é descrito de forma mais clara e espetacular por Krishnadas Kaviraja Goswami no Chaitanya Charitamrita:

Após vagar por todo este universo, nascimento após nascimento, algumas almas afortunadas recebem a semente da devoção (bhakti-lata-bija) pela misericórdia de Krishna e do guru. Ao receber a semente do serviço devocional, é necessário cuidar dela, tornando-se um jardineiro e semeando-a em seu coração. Se a semente for regada gradualmente através do processo de sravana e kirtana [audição e canto], ela começará a brotar. Conforme a bhakti-lata-bija é regada, a semente germina, e a trepadeira gradualmente cresce até o ponto onde penetra as paredes deste universo e ultrapassa o rio Viraja entre o mundo espiritual e o mundo material. Ela atravessa Brahma-loka, a refulgência de Brahman até que finalmente alcança o céu espiritual e o planeta espiritual Goloka Vrindavana, onde toma o abrigo da árvore dos desejos dos pés de lótus de Krishna. Ali a trepadeira se expande enormemente e produz o fruto do amor por Krishna, enquanto que o jardineiro continua regando regularmente a trepadeira com a água da audição e do canto aqui no mundo material.

Uma ofensa aos Vaishnavas é como um elefante louco que arranca ou quebra a trepadeira, fazendo com que suas folhas sequem. Por isso, o jardineiro deve protegê-la criando uma cerca ao seu redor para que o elefante das ofensas não a adentre. Mesmo assim, trepadeiras indesejadas, como as ervas daninhas do desejo do desfrute material ou liberação deste mundo, podem crescer juntamente com a trepadeira do serviço devocional. Tais ervas daninhas possuem uma variedade incontável. Alguns exemplos são atividades proibidas, críticas e trapaça, causar sofrimento a outras criaturas, busca pela riqueza, adulação ou valorização mundana. Todas essas ervas daninhas crescem juntamente com a trepadeira principal enquanto é regada, fazendo com que seu crescimento seja reduzido.

Tão logo o devoto observa essas ervas daninhas que crescem ao lado da trepadeira original, ele deve cortá-las imediatamente. Dessa forma, a bhakti-lata genuína poderá crescer de forma saudável até Vrindavana, onde encontrará o abrigo sob os pés de lótus de Krishna. (Chaitanya Charitamrita 2.19.151-61)

Altar pessoal no bhajana-kutir de Srila Rupa Goswami em Terkadamba
Altar pessoal no bhajana-kutir de Srila Rupa Goswami em Ter Kadamba

Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Goswami Thakura comenta sobre na sua obra Anubhasya: “Conforme a trepadeira do serviço devocional é regada através da audição e do canto, ervas daninhas também podem crescer, o que pode sufocar o crescimento da bhakti-lata. Se a má associação não for evitada, que é a única maneira de se livrar das ofensas durante a audição e o canto, a consequência será o apego a gratificação dos sentidos, a ideia de liberação da escravidão material, varias conquistas místicas ou outras práticas enganadoras. E também a associação ilícita de mulheres ou prática de outras falsas manifestações de devoção praticadas pelos prakrta-sahajiyas ou habitação dos cinco locais dados por Pariksit à Kali, ou seja, qualquer local onde haja apostas, intoxicação, prostituição, abate de animais ou acúmulo de ouro. E também passa a ver os Vaishnavas como membros de uma determina raça ou casta, encontra meios desonestos de ganhar dinheiro, ou demonstra uma prática de vida espiritual para terceiros enquanto mantém secretamente desejos por fama e adulação O desejo de reputação mundana pode resultar em compromissos com não devotos, comprometimento da filosofia ou vida espiritual, ou na sua transformação em um defensor do sistema de castas hereditárias ao professar o discipulado a um falso guru que se opõe a Vishnu e aos Vaishnavas. A soma e a substância desses caminhos aberrantes é que aquele que se torna intoxicado na gratificação dos seus próprios sentidos a fim de alcançar esses fins superficiais e destrutíveis, totalmente distantes da devoção pura, torna-se santo ou religioso apenas para acumular seguidores. Nenhuma dessas coisas é útil na realização de serviço devocional puro a Krishna.

“Se as diversas ervas daninhas forem arrancadas assim que começarem a brotar, a trepadeira do serviço devocional terá forças para crescer até Goloka Vrindavana, onde dará frutos transcendentais. Caso contrário, o jardineiro terá a vida devocional cortada e permanecerá no mundo material, seja nos planetas superiores ou inferiores, onde terá que sofrer seus caprichos.” (Anubhasya, 2.19.160-1)

Há doze sentimentos devocionais. Os cinco primários são tranquilidade, servidão, amizade, paternidade e amor erótico. Os sete secundários são humor, espanto, heroísmo, compaixão, raiva, nojo e medo.

Os cinco sentimentos primários permanecem permanentemente dentro do coração do devoto, enquanto os sentimentos secundários são fortuitos, aparecendo apenas quando há causa. (Chaitanya Charitamrita 2.19.188)

Terkadamba
Ter Kadamba

As rasas secundárias atuam como elementos de apoio para os sentimentos primários, surgindo e sumindo diante do surgimento de circunstâncias propícias. Após cumprirem sua função, novamente desaparecem, considerando que os sentimentos primários possuem abrigo permanente no coração do devoto.

Em seus ensinamentos a Rupa Goswami, Mahaprabhu estabeleceu que dentre as cinco principais rasas, o sentimento divino do amor conjugal é o mais elevado. As características de santa-rasa incluem o abandono de outros desejos e forte apego a Krishna. Além destas características, o possessor do humor de serviço possui o serviço, o amigo possui a intimidade, enquanto o pai possui o sentimento de proteção. O devoto em madhura-rasa possui todas essas qualidades, além de servir com seu próprio corpo. Assim como todas as qualidades dos outros elementos, começando pelo éter, são adicionadas para serem unidas à terra, todas as qualidades dos outros humores devocionais estão juntas no humor do amor erótico. Uma vez que todos os sentimentos estão presentes em madhura-rasa, ela é superior.

O templo do samadhi de Rupa Goswami está localizado no pátio do templo Radha Damodara em Vrindavana. Foi também nesse local que ele executou bhajana no final de sua vida. Outros lugares sagrados que relembram Rupa na área de Vraja incluem o seu local de adoração próximo a Nandagrama, chamado Ter Kadamba. Nesse local, Radha surgiu disfarçada para entregar leite, arroz e açúcar a Rupa Goswami para que ele cozinhasse uma preparação de arroz doce para Sanatana Goswami. Assim que Sanatana provou o arroz doce, ele sentiu êxtases divinos invadindo o seu corpo. Após tomar conhecimento de como ele havia recebido os ingredientes, Sanatana proibiu Rupa de cozinhar arroz doce novamente para que Radharani não tivesse nenhum problema por causa deles.

Os passatempos de Rupa Goswami neste mundo se encerraram no mês de Bhadra, no décimo segundo dia da lua crescente, um dia após Jhulana Ekadasi.

Tradução: Madhukari Radhika Devi Dasi
Fonte: BVML