Uma celebração de quatro dias sagrados

por Tridandisvami Sri Srimad Bhaktivedanta Narayana Maharaja
Murwillumbah, Austráli
17 de fevereiro de 2002

[Em 2018, a celebração de Vasanta-Pancami e os aparecimentos de Srimati Visnupriya devi e Srila Raghunatha dasa Goswami, e o desaparecimento de Srila Visvanatha Chakravarti Thakura são celebrados em 22 de janeiro. A seguir, uma aula proferida em Murwillumbah, Austrália, em 17 de fevereiro de 2002, em homenagem a este dia sagrado.]

Chandra sarovara, local da dança da Rasa
Chandra sarovara, local da dança da Rasa

Vasanta Pancami

Na Índia, há muitos festivais para a adoração do Senhor Krishna. Lá, o ano é dividido em seis estações com duração de dois meses cada. Dentre elas, a mais gloriosa é Vasanta, a primavera. Ela é muito agradável, pois o clima não é muito quente, nem muito frio. Uma abundância de flores perfumadas, como beli, cameli, jui e outras florescem em todos os lugares, e flores como ratkerani (dama da noite) floresce até mesmo à noite. Nessa época, rios como o Ganges e Yamuna ficam especialmente claros e puros, eles parecem apenas esperar por Sri Sri Radha e Krishna, e as terras em muitos locais parecem tapetes amarelos, pois estão repletas de diversos tipos de flores amarelas. As vestes de Krishna também são amarelas, pois Sua mais amada Srimati Radhika possui uma tez amarelada-dourada e Ele deseja estar sempre abraçado nEla.

Hoje é Vasanta-Pancami, o início da temporada de Vasanta, momento em que a dança da Rasa de Krishna foi realizada em Govardhana, no vilarejo de Parasauli, próximo ao lago conhecido como Chandra Sarovara.

Nesse momento, as gopis dançaram com Krishna pela duração de uma noite que se tornou bilhões de anos; tornando-se tão longa quanto um dia inteiro de Brahma. Nessa noite a lua parou, ela não se movia para não perder a sua melhor vista da dança de Radhika e de todas as Suas sakhis com o Senhor Krishna. Esses tão belos passatempos nasceram de um oceano de rasas (doces sabores transcendentais), saturados com felicidade ilimitada.

Em Saradiya, a temporada de outono, a dança da Rasa foi executada em Vrindavana, sob a sombra da árvore Vamsivata, no início do mês de Kartika. Todas as classes de gopis participaram do Saradiya rasa-yatra, considerando que nessa Govardhana Vasanti-rasa, somente a classe mais alta das gopis foi autorizada a participar. Na dança da Rasa na primavera, o Senhor Krishna demonstrou abertamente a proeminência e a superioridade de Srimati Radhika.

Krishna desapareceu no meio da dança Vasanti Rasa, e todas as gopis começaram a chorar amargamente, “Onde está Krishna? Onde está Krishna?” As gopis procuraram por Ele em todos os lugares, e depois de algum tempo o viram em Sua forma de quatro braços, parado como uma estátua. Ao se aproximarem, elas disseram, “Ó, Ele se parece com Krishna, mas ao mesmo tempo não é Krishna. Nosso Krishna não tem quatro braços. Onde está Sua flauta, Sua pena de pavão e toda a Sua veste? Agora Ele carrega uma concha, um disco, uma maça e uma flor de lótus – em quatro mãos!” Elas oraram para Ele, “Nós somos muito apegadas a Krishna e o estamos procurando. Nós morreremos sem Ele. Se és Narayana, por favor, seja misericordioso e nos fale para onde Ele foi. Seja misericordioso para que consigamos encontrá-lo.” Então, após orarem, elas partiram e seguiram seu caminho.

Após as gopis partirem, Srimati Radhika ali chegou. A brisa que havia tocado o Seu véu carregava tanto da fragrância do Seu corpo que ela entrou na narina de Krishna e Ele pensou, “Ó, a Minha mais amada está aqui perto.” Ele esqueceu que tinha que manter a Sua forma de quatro braços, e não conseguiu mais manter Sua forma original. As duas mãos desapareceram de uma só vez, entrando em Seu corpo, e Sua forma original de dois braços reapareceu – com a flauta em Suas mãos e com a pena de pavão no topo de Sua cabeça.

Dança da Rasa
Dança da Rasa

rasarambha-vidhau niliya vasata kunje mrgaksi-ganair
drstam gopayitum svam uddhura-dhiya ya susthu sandarsita
radhayah pranayasya hanta mahima yasya sriya raksitum
sa sakya prabhavisnunapi harina nasic catur-bahuta

[“No início da dança da Rasa, o Senhor Krishna se escondeu em um bosque só para se divertir. Quando as gopis chegaram, Seus olhos semelhantes a de um veado, com Sua inteligência afiada, exibiu Sua bela forma de 4 braços para esconder-se. Mas quando Srimati Radharani ali chegou, Ele não conseguiu mais mantê-los. Essa é a maravilhosa glória de Seu amor.” (citação do Ujjvala-nilamani de Srila Rupa Goswami, conforme citado no Sri Chaitanya-Charitamrta Adi 17.293)]

Quando Krishna vê Radhika, Sua mais amada e personificação de todo amor e carinho, Ele esquece de todo o resto. Ela não é outra senão Krishna. Ela é o próprio Krishna, mas no corpo de Radhika.

Dessa forma, Krishna voltou à Sua própria forma e abraçou-a rapidamente. Isso ocorreu em vasanti-rasa-lila.

No capítulo do Sri Chaitanya-charitamrta chamado Raya Ramananda Samvad, Srila Chaitanya Mahaprabhu questionou Sri Raya Ramananda Prabhu, “Qual é a nossa sadhya (perfeição) e nosso sadhana (o processo para alcançar essa perfeição)?” Raya Ramananda respondeu, começando a partir de varnasrama-dharma. Ele disse a Mahaprabhu, “De acordo com os adeptos do varnasrama-dharma, estar na vida familiar e seguir varnasrama-dharma (a execução dos deveres religiosos de diferentes castas e estados de vida), a fim de agradar a Krishna, é o melhor processo para agradá-lo.” Mahaprabhu rejeitou essa resposta e disse, “Em varnasrama há nenhuma relação pura entre a alma e Krishna. Depois disso, Raya Ramananda sugeriu, “Deve-se oferecer os frutos de todas as atividades aos pés de lótus de Krishna”, mas Mahaprabhu também a rejeitou e disse, “Isso é externo, vá além.”

Mahaprabhu e Ramananda Raya
Mahaprabhu e Ramananda Raya

Depois disso Raya Ramananda disse, “Deve-se tomar refúgio nos pés de lótus de Krishna”, e citou um verso do Bhagavad-Gita: “Abandone todas as variedades de religião e renda-se somente a Mim. Eu o liberarei de todas as reações pecaminosas. Não tema.” (Bhagavad-Gita 18.66)] Krishna aqui está dizendo, “Se você tomar o abrigo dos Meus pés de lótus, você será feliz para sempre.” Pessoas de todo o mundo pensam que essa é a essência do Bhagavad-Gita, mas Mahaprabhu a rejeitou por ser externa e, portanto, não é objetivo final da vida, e Ele disse a Raya Ramananda “Continue, aprofunde-se ainda mais.

Em seguida, Raya Ramananda sugeriu karma-Jñana-misra-bhakti (devoção contaminada pela especulação mental e o desejo de desfrutar os frutos das ações), e proferiu o seguinte verso: “Aquele que está situado nessa posição transcendental por compreender o brahman impessoal jamais lamenta ou deseja algo, e é equânime para com todas as entidades vivas.  Ele tem a oportunidade de compreender o Brahman Supremo e tornar-se-á completamente feliz se alcançar o serviço devocional puro a Mim.

Sriman Mahaprabhu também rejeitou ambos os conceitos – karma-Jñana-misra-bhakti e brahma-bhutah – pois são desprovidos de devoção pura, e depois disso gradualmente Raya Ramananda adentrou o tópico de prema-bhakti. Mahaprabhu respondeu da seguinte forma, “Esse pode ser o estágio de perfeição, mas por favor, aprofunde-se ainda mais.” Raya Ramananda então abordou dasya, sakya e vatsalya-prema (amor por Krishna nos humores de servo, amigo e parental) e Mahaprabhu disse, “Ó, muito bom, muito bom! Mas por favor, aprofunde-se ainda mais.” Em bhakti-rasa (devoção íntima a Krishna enquanto se vê em um relacionamento com Ele como um menino vaqueiro comum), Ele não é pai ou mãe de ninguém. Na compreensão de bhakti pura, o Senhor Supremo não pode ser pai ou mão de alguém, Ele só pode ser filho. Nós podemos servir Krishna em qualquer uma das quatro relações, mas se pensarmos que Ele é nosso pai ou mãe, não poderemos serví-lo, pois pais e mães servem seus filhos.

Após ouvir sobre essas relações, Chaitanya Mahaprabhu disse a Raya Ramananda, “Por favor, fale mais”, e Raya Ramananda então disse, “Gopi-prema (servir Krishna no humor de amante) é a mais alta realização, e entre as gopis Srimati Radhika é a melhor. Quando Mahaprabhu pediu a Raya Ramananda para dar um exemplo de um passatempo que revela a supremacia do Radhika, Raya Ramananda primeiro deu o exemplo da Saradiya rasa-lila. Ele disse, “Todas as gopis dançavam com Krishna, e parecia que uma gopi estava dançando entre dois Krishnas e um Krishna dançava entre cada duas gopis. Bilhões de gopis dançavam juntamente com Krishna, mas de repente Ele desapareceu. Por que Ele desapareceu? Ele fez isso para agradar Radhika, levando-a com Ele. Ninguém sabia para onde havia ido com Sua amada.”

Mahaprabhu então expressa Sua dúvida: “Porque Krishna reuniu-se com Radhika depois de Seu desaparecimento na dança da Rasa, parece que Ele tinha medo de todas as outras gopis. Ele abertamente desiste de todas as gopis, partindo com Radhika na frente de todas elas, apenas isso demonstra que o amor de Radhika é o mais elevado.”

Então, Sri Raya Ramananda explica sobre a vasanti-rasa. Ele disse, “Krishna estava dançando com bilhões de gopis, e enquanto isso Radhika pensava, ‘Krishna sempre Me promete: “Você é a mais amada por Mim.” Mas vejo que Ele está dançando comigo e com todas as outras gopis; Então talvez nós todas sejamos iguais aos Seus olhos.’ Naquele momento Radhika adotou um humor mal humorado e ficou irritada. Então, ela abandonou a dança da Rasa diante de todas as outras gopis, e Krishna foi atrás dEla.

Nesta pintura feita por Syamarani divi entitulada Manini-Radha, o Senhor Krishna remove a poeira dos pés de lótus de Srimati Radhika e tenta quebrar a Sua ira ciumenta amorosa transcendental (mana).
Nesta pintura feita por Syamarani devi entitulada Manini-Radha, o Senhor Krishna remove a poeira dos pés de lótus de Srimati Radhika e tenta quebrar a Sua ira ciumenta amorosa transcendental (mana).

“Krishna pensava, ‘Se Radhika não está aqui, não haverá nenhuma Rasa. Não haverá nenhum significado para a Rasa. Estou realizando a rasa-lila somente para Radhika. Ela é a Minha metade, Meu tudo, Meu guru e Minha serva; Ela é tudo para mim. Ela é Minha vida e alma. Em vasanti-rasa, Krishna declara isso abertamente.”

Mahaprabhu logo disse, “Ó, isso é bom!” e Ele questionou ainda mais, “Agora quero ouvir de você sobre krsna-tattva, radha-tattva, prema-tattva e rasa-tattva.” No entanto, após Raya Ramananda começar a descrever profundamente estes tópicos, Mahaprabhu o interrompeu dizendo, “Não diga mais nada. Estes assuntos são tão elevados que não há ninguém neste mundo qualificado para ouvi-los. Se você continuar a falar sobre eles, entrarei de uma vez no humor de Krishna e terá que desistir desta forma de Sacinandana Gaurahari.” E assim Raya Ramananda parou de falar.

Para nós, hoje observamos as celebrações de aniversário desta mesma vasanti-rasa, e para Krishna ela está acontecendo eternamente. Todos os seus passatempos se manifestam eternamente em Goloka Vrindavana, e Ele também os exibe ao longo de inúmeros universos conforme Ele aparece em um universo após o outro. Aqui em vasanti-rasa, Krishna declara abertamente, “Minha mais amada é Srimati Radhika.”

Não há nenhuma diferença entre Srimati Radhika e o Senhor Krishna. Krishna manifestou Radhika no Seu lado esquerdo. Se pudermos fazer Radhika feliz, então Krishna ficará feliz e Ele será facilmente controlado; e esse é o propósito de observar vasanti-rasa.

O Dia do aparecimento de Srimati Visnupriya devi

Hoje também é o aniversário de Visnupriya devi, a esposa, a potência, a energia de Sri Chaitanya Mahaprabhu. Ela é uma das manifestações de Srimati Radhika, e especialmente uma manifestação de Satyabhama, e a Bhu-shakti do Senhor Supremo.* [Consultar Nota de rodapé 1] Ela tinha grande amor e afeição por Sacinandana Gaurahari e foi casada com Ele por muitos anos; mas Mahaprabhu sempre esteve absorto no humor de Radha, chamando “Ah, Krishna! Ah Krishna!”, e com isso Ele não tinha tempo para conversar com ela. Embora fossem uma só família, uma só casa, Ele estava sempre absorto nos êxtases de Srimati Radhika. Assim, Ele às vezes caia e rolava na terra, em outras chorava e até cantava bem alta como uma pessoa louca.

“No estágio de amor a Deus, o devoto fica fixo em seu voto como um eterno servo do Senhor, e assim torna-se muito apegado a um determinado nome e forma da Suprema Personalidade de Deus. Conforme seu coração derrete com amor extático, ele ri, chora ou grita muito alto. Às vezes ele canta e dança como um louco, pois ele é indiferente à opinião pública.” (Srimad-Bhagavatam 11.2.40)]

Sri Chaitanya Mahaprabhu sempre agia dessa maneira, e chorava continuamente. Caso deseje desenvolver amor por Krishna, você sempre terá que seguir Chaitanya Mahaprabhu e sempre chorar por Krishna. Podemos ver que durante toda a sua vida Ele chorou, desde o início. Isso aumentou ainda mais quando Ele recebeu sannyasa e abandonou tudo para ir até Jagannatha Puri, e ainda mais após se encontrar com Raya Ramananda.

Embora Visnupriya devi tivesse sido casada com Mahaprabhu durante Sua vida familiar, Ele raramente falava com ela, especialmente quando retornou de Gaya, onde recebeu iniciações harinama e diksa de Seu gurudeva, Sri Isvara-puripada. Sua personalidade mudou naquele momento. Ele já não era mais conhecido como Nimai Pandita. Agora Ele havia se tornado conhecido como Bhavuka Nimai, Nimai que está sempre absorto em Seus humores extáticos de Krishna-prema.

No entanto, neste momento alguns habitantes de Navadwipa, especialmente os estudantes de Seus professores, tornaram-se desfavoráveis a Ele e passaram a querer controlá-lo. Mahaprabhu, pensava, “Eu vim dar o remédio supremo para a doença material que acomete a todos, mas essas pessoas brigam comigo e Me insultam. Eu devo aceitar sannyasa, a ordem de vida renunciada, e então eles chorarão por Mim* [Consultar Nota de rodapé 2], e assim mergulharei o mundo inteiro, incluindo os mayavadis como Sarvabhauma Bhattacarya e Prakasananda Sarasvati, em Krishna-prema. ” Esse foi um dos motivos que levou Chaitanya Mahaprabhu a tomar sannyasa.

Sri Dhameswar Mahaprabhu, deidade adorada por Visnupriya após Chaitanya Mahaprabhu receber sannyasa
Sri Dhameswar Mahaprabhu, deidade adorada por Visnupriya após Chaitanya Mahaprabhu receber sannyasa

No dia em que Ele decidiu tomar sannyasa, Visnupriya devi foi banhar-se no Ganges. Durante o caminho, ela acidentalmente bateu o dedo em uma pedra, ferindo-se a ponto de sangrar. Enquanto ela estava no meio do seu banho, o brinco de seu nariz que havia ganho no dia do seu casamento, que é muito auspicioso para a esposa, caiu no rio Ganges. Embora tenha procurado com muito esforço, ela não o encontrou. Ela começou a chorar amargamente, “Por que todas essas coisas estão acontecendo hoje?” Mais tarde, após voltar para casa, Saci Mata lhe perguntou, “Ó minha filha, por que choras assim?” Ela respondeu: “Hoje fui tomar banho no Ganges. Machuquei o meu pé e perdi o brinco do meu nariz que recebi no dia do meu casamento. Não sei porque é esse o meu destino.” Saci Mata, a mãe de Chaitanya Mahaprabhu, tentou consolá-la.

Embora Chaitanya Mahaprabhu anteriormente não tivesse lhe dado quase nenhuma atenção, naquela noite, após tomar prasadam, Ele arrumou seus cabelos e colocou nozes de betel em sua boca. Naquela manhã, Ele havia ido visitar e se encontrar com todos os Seus associados. Ele havia conseguido um pouco de leite e também um vegetal loki com Sridhara, com quem ele sempre travava brincadeiras de luta. Após retornar para casa naquela noite, Ele disse à Saci Mata, “Mãe, por favor, faça uma preparação lak-laki com eles, e adicione açúcar, ghee, cânfora e outros ingredientes e ofereça-a ao Senhor Krishna.” Mais tarde, Ele honrou o prasada, e depois entrou no quarto de Visnu-priya devi como uma pessoa luxuriosa, com vestes reais, como se estivesse vestido para uma cerimônia de casamento. Então, com amor e carinho, perguntou-lhe, “Ó, como estás?” Ele a decorou, deu-lhe uma bela guirlanda, colocou nozes de betel em sua boca, e conversaram amorosamente.

Visnu-priya começou a pensar, “O que estou vendo? Um furacão de luz, que queima com querosene, brilhando intensamente quando está prestes a ser extinto. E emite os sons ‘buk buk’, então ‘tuk’, e então torna-se escuro e apaga. Agora vejo que meu destino pode ser assim. Considerando o que aconteceu nessa manhã, e vendo como Ele está me decorando de forma tão generosa, dando-me nozes de betel e me dizendo palavras gentis, ‘Minha mais querida amada’, gostaria de saber qual é o meu destino. Por que Ele está fazendo isso?”

Entretanto, Yogamaya chegou e entrou nos olhos de Visnupriya na forma de sono. Ela não queria dormir, mas devido ao poder de Yogamaya, viu-se forçada a fazê-lo. Chaitanya Mahaprabhu olhou para ela e, em seguida, levantou-se, saiu de casa e tomou sannyasa.

Sem abrir mão de tudo neste mundo, como pode alguém amar completamente o Senhor Krishna? Se o seu amor e afeto for dividido entre muitas pessoas, situações e objetos, como será possível amar Krishna? Temos visto que na Índia, devotos exaltados como Srila Raghunatha dasa Goswami e Srila Rupa Goswami e também o próprio Chaitanya Mahaprabhu, rapidamente desistiram de suas posições, riqueza, reputação, pai, mãe, esposa e filhos. Chorando por Krishna, eles deixaram suas casas e tomaram sannyasa, esquecendo-se completamente de suas casas e famílias, e sempre lembrando, “Krishna! Krishna! Krishna!”

No momento em que Mahaprabhu deixava Sua casa, Ele viu Sua mãe parada como uma estátua, nem uma lágrima caía de seus olhos. Ela nem sequer conseguia pensar no que fazer. O ar entrava e saía de suas narinas, mas ela não tinha nenhuma consciência externa – pois Mahaprabhu, através do poder de Yogamaya, controlava-a. Mahaprabhu fez parikrama em Sua mãe por três ou quatro vezes, tocado seus pés de lótus e disse-lhe: “Mãe, Eu vou procurar Meu amado Krishna.” Então, no meio daquela noite fria e escura, Ele pulou no rio Ganges, chamando “Ó, Krishna!” Ele saiu do outro lado do rio, no Kantaka Nagari, e foi ver Keshava Bharati para receber sannyasa dele.

Após aceitar a ordem de sannyasa, Mahaprabhu foi até Jagannatha Puri, e de Puri retornou para Navadvipa a caminho de Vrindavana. Enquanto isso, todos os moradores dos arredores vinham de barco ou por outros meios de transporte ver Sacinandana Gaurahari. Até mesmos os cães e cegos vieram, bem como Saci Mata.

Visnupriya devi
Visnupriya devi

Todos estavam presentes, exceto Visnupriya. Por que ela não foi? Esse é o sintoma de amor e afeição por Krishna. Se você vai desistir do seu objeto mais querido por Krishna, esse é o sintoma que possui algum amor e afeição por Ele. Sri Chaitanya Mahaprabhu ensinou isso pelo seu próprio exemplo e por esse motivo Visnupriya não estava presente. Todo mundo foi autorizado a ir, mas ela não.

O que ela estava fazendo? Ela chorava sem parar. Ela era mais apegada a Sri Chaitanya Mahaprabhu do que qualquer outra pessoa, e também era mais desapegada das coisas mundanas do que o próprio Chaitanya Mahaprabhu. Ela se sustentava ingerindo poucos grãos de arroz, um por um, e usava-os como contas enquanto cantava sem parar, “Hare Krishna Hare Krishna, Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama, Rama Rama Hare Hare.” Sempre que ela completava o cantor dessas dezesseis palavras, ela pegava um grão de arroz e o colocava em uma pilha. Então ela lavava os grãos de arroz um por um, com a água de suas lágrimas enquanto cantava até o meio-dia, e depois os cozinhava com alguns legumes. Então, ela entregava a bhoga a Mãe Saci, que ofereceria a sua deidade, Narayana. Depois disso, ela comia muito pouco, enquanto relembrava os passatempos de Sacinandana. Sua vida era totalmente absorta no Senhor Krishna e Sri Chaitanya Mahaprabhu, e cantava Hare Krishna dia e noite. Depois de algum tempo, Mahaprabhu deu a ela uma deidade de si próprio, feita de madeira de neem, e essa mesma deidade ainda é adorada em Navadwipa. Visnupriya costumava adorar essa deidade, chorando amargamente e conversando com Chaitanya Mahaprabhu, e Ele também conversava com ela na forma dessa deidade.

Saci Mata também sempre se lembrava de Chaitanya Mahaprabhu. Ela costumava oferecer-lhe prasadam, e Ele costumava ir até a sua casa e come-la – embora ela pensasse que a Sua vinda estava apenas em sua imaginação ou considerava ser uma miragem.  Ele era obrigado a ir, devido ao amor e afeição de Saci Mata e Visnupriya devi.

Se alguém deseja servir Mahaprabhu ou Radha-Krishna, essa pessoa deve ser igual a Visnupriya. Ela era muito mais renunciada do que qualquer outra pessoa, incluindo Mahaprabhu. Ele era renunciado, mas não igual a ela. Além disso, Ele estava sempre cercado por muitos bhaktas que o consolavam, mas ela não tinha ninguém para isso.

Hoje é o aniversário de Visnupriya, que é a personificação de prema-bhakti. Ela é a própria prema-bhakti.

Visnupriya devi ki Jaya!

Srila Narayana Goswami Maharaja
Srila Narayana Goswami Maharaja

[Pergunta:] Gurudeva, você disse que Visnupriya devi é Bhu-sakti. Então, quem é Lakshmi?

[Srila Gurudeva:] Não, ela é igual a Satyabhama.

[Pergunta:] Mas ouvimos que Navadwipa dhama não é diferente de Vraja.

[Srila Gurudeva:] Sim

[Pergunta:] Então como é possível Satyabhama estar em Vraja-lila?

[Gurudeva:] Radhika veio como Gadadhara Pandita, e Sri Svarupa Damodara e Sri Raya Ramananda vieram como Lalita e Visakha. Os associados de Nrsimhadeva, Ramachandra, e todas as outras encarnações também vieram para Navadwipa, pois Sacinandana Gaurahari inclui todas as encarnações. Todas as encarnações estão dentro dEle. Então Satyabhama também pode estar em Navadwipa-lila e ter a associação de Sri Chaitanya Mahaprabhu.

[Pergunta:] Isso também vale para Svetadvipa (Navadvipa em Goloka Vrindavana)?* [Consultar Nota de rodapé 3]

[Srila Gurudeva:] Sim, todos eles podem estar lá também. Tudo existe em Krishna, conforme afirmado no Vedanta Sutra: Viruddha dharmam tasmin na cittram – todas as características mutualmente contraditórias existem harmoniosamente nos passatempos do Senhor Krishna, e Chaitanya Mahaprabhu é o próprio Krishna.

[Pergunta:] Então, nós adoramos Visnupriya devi e Sri Chaitanya Mahaprabhu no caminho de arcana, seguindo os princípios de sravanam kirtanam, visnu-smaranam, pada sevanam (ouvir, cantar, lembrar e rezar etc.) de forma regulativa, em temor e reverência?

[Srila Gurudeva:] Sim, serve-se Visnupriya devi e Mahaprabhu em arcana-marga (o caminho da adoração regulada), e serve-se Gaura-Gadadhara em bhava-marga, ou seja, ouvindo, cantando etc. em amor espontâneo, seguindo os passos das gopis.

Samadhi de Srila Raghunatha dasa Goswami no Radha-kunda
Samadhi de Srila Raghunatha dasa Goswami no Radha-kunda

O dia do aparecimento de Srila Raghunatha dasa Goswami

Hoje também é o aniversário de Srila Raghunatha dasa Goswami Se vocês desejam se tornar devotos puros, precisarão seguir Srila Raghunatha dasa Goswami. Vocês desejam seguir, mas são fracos, tal como Srila Gour Govinda Maharaja diz, “Sr. Cachorro, Sr. Porco, Sr. Leitão.” –  e alguns são como camelos, tigres ou ursos. Temos que tentar seguir Srila Raghunatha dasa Goswami. Ele era rico e possuía uma posição elevada, mas abandonou tudo por Krishna e chorava sem parar, “Ó Krishna, Ó Sacinandana Gaurahari.” Pela misericórdia de Nityananda Prabhu, ele rapidamente abrigou-se em Mahaprabhu. Mesmo sem comer quase nada, de alguma mantinha-se vivo. Ele partiu para Vrindavana após a partida de Mahaprabhu, e viveu no Radha-kunda.

Sem a misericórdia do guru não é possível ter amor e afeição por Krishna ou Chaitanya Mahaprabhu. Guru-krpa (misericórdia do guru) é essencial, e guru-nistha (fé no guru) é a espinha dorsal de todos os tipos de bhakti. Após Srila Raghunatha dasa Goswami receber a misericórdia de Nityananda Prabhu, todos os seus problemas e obstáculos rapidamente desapareceram, e ele foi capaz de abandonar sua casa para estar com Chaitanya Mahaprabhu. O desempenho de bhajana em casa, enquanto ainda se vive com os pais, esposa ou marido, é um tipo de bhajana, mas esse tipo não é capaz de produzir os frutos de amor e afeição por Krishna. Um dia vocês terão que desistir completamente.

O primeiro sintoma de bhakti genuína, obtida através das austeridades do cantar e lembrar-se de Krishna, é o conhecimento sem causa e desapego deste mundo. Vocês certamente tornarão-se renunciados, independente de estar na vida mundana ou na vida renunciada. Se vocês estiverem cantando de forma séria e perfeita, a renúncia ocorrerá. Ouvimos dizer que quando o Guru Nanak (o santo indiano que fundou a religião Sikh) era jovem, seu pai lhe disse, “Vá ao mercado e traga os ingredientes que precisamos vender em nossa loja.” No caminho para o mercado, ele encontrou muitos Vaisnavas e sadhus. Vendo que não havia nenhum planejamento de prasadam para eles, rapidamente foi até o mercado e comprou toda a parafernália necessária para fazer um festival para eles, e por causa disso gastou todo o dinheiro de seu pai. Ao voltar mais tarde para sua casa com as mãos vazias, seu pai lhe perguntou: “Onde estão os ingredientes que eu disse para comprar – o arroz, dahl, ghee e outras coisas?”

Srila Haridasa Thakura
Srila Haridasa Thakura

Guru Nanak respondeu, “Eu comprei, mas dei todos os itens para o serviço aos Vaisnavas. Assim eu fiz boas compras para o meu futuro e em benefício de toda a minha dinastia.” Ele tinha muita fé em Krishna; ele sabia que aquele que serve Krishna, Ele dará tudo o que essa pessoa precisa. Nós não temos essa mesma crença, e, portanto, ainda é muito difícil para nós dar um centavo. Algumas pessoas podem dar um pouco de suas riquezas, mas ele deu tudo.

Devido a Srila Raghunatha dasa Goswami estar sempre cantando e lembrando de Krishna, por ter sido criado espiritualmente por Srila Haridasa Thakura e iniciado por Sri Yadunandana Acharya, algum efeito positivo havia de surgir. Ele se isolou do mundo, e considerava Krishna como sendo seu pai, sua mãe, seu tudo. Todos os tattvas (verdades filosóficas estabelecidas) surgiram em seu coração, e ele rapidamente deixou sua casa e sua bela esposa. Ele era o único filho de seu pai, que era tão rico quanto um rei, e sua esposa era tão bela quanto a Miss Universo. Teria sido muito difícil para uma pessoa comum desistir de tais luxos.

Após sair de casa, Raghunatha dasa não percorreu a estrada principal. Escondido, ele pegou a rota do vilarejo, sem comer nada, exceto um pouco de arroz inflado e leite, e uma jornada que levaria um mês foi concluída rapidamente em 12 dias. Naquela época não havia trens ou carros, mas ele correu rapidamente, sem ter tempo até mesmo para se banhar.

Após chegar em Jagannatha Puri, ele não foi ver Jagannatha, Baladeva e Subhadra. Ele foi diretamente até a assembleia de Sri Chaitanya Mahaprabhu, que estava cercado por muitos associados como Svarupa Damodara e Raya Ramananda. Alguém disse a Mahaprabhu, “Raghunatha chegou”, e Mahaprabhu rapidamente abraçou-o e disse: “Ó Raghunatha, você veio de uma vala de excrementos.” Algum tempo antes, Mahaprabhu lhe disse para voltar para casa, mas agora Ele disse, “Toda a vida mundana é como excrementos e Krishna é tão misericordioso que Ele o liberou e agora você abandonou sua casa.” Mahaprabhu então colocou-o nas mãos de Sri Svarupa Damodara, e Srila Raghunatha dasa Goswami assim começou uma vida transcendental; sempre ouvindo de Sri Chaitanya Mahaprabhu, Sri Svarupa Damodara, Srila Rupa Goswami, Sri Pundarika Vidyanidhi, Sri Vakresvara Pandita, Sri Gopal Guru e Srila Haridasa Thakura.

Sri Krsnadas Kaviraja Gosvami
Sri Krishnadasa Kaviraja, autor do Chaitanya-caritamrta

A história de vida de Srila Raghunatha dasa Goswami é uma das joias do Sri Chaitanya-caritamrta, e além disso, muito do que Srila Krishnadasa Kaviraja escreveu no Chaitanya-caritamrta foi ouvido dos lábios de lótus de Raghunatha dasa Goswami. Tentem se lembrar de sua vida e caráter. Se fizerem isso, uma potência entrará em vocês e conseguirão se tornar devotos como ele – seja vivendo uma vida mundana ou renunciada. Tentem ser como ele. Nós não conseguiremos ser como ele sem ajuda, e por isso oramos a Nityananda Prabhu para nos ajudar.

Gaura Premanande!

[Nota de rodapé 1 – Bhagavan tem três potências – Sri (Laksmi), Bhu (a Deusa da Terra) e Lila (a Deusa dos Passatempos). Bhu é a energia que cria a manifestação cósmica (Chaitanya-charitamrta Adi 5.27-28 – comentário). Bhu-sakti também auxilia na manifestação dos passatempos de Krishna em Bhauma-Vrindavana, o lugar dos Seus passatempos como eles são exibidos no planeta Terra neste universo e em inúmeros outros universos. A Deusa da terra, Pritivi devi, também está incluída dentro desta potência. Sem essa potência Bhu, Krishna não terá nenhum lugar para executar Seus passatempos.]

[Nota de rodapé 2 – Na cultura védica, os sannyasis são os que honram]

[Nota de rodapé 3 – A região mais íntima e confidencial de Goloka, o planeta transcendental do próprio Krishna, divide-se em duas seções: Vrindavana (também conhecida como Vraja e Gokula) e Navadwipa (também conhecida como Svetadwipa).

Tradução: Madhukari Radhika Devi Dasi
Fonte: Pure Bhakti