Sri Raghunatha Goswami

[Em 2017,  o desaparecimento de Sri Raghunatha Goswami é relembrado em 02 de outubro.]

raghunath
Sri Krsnadas Kaviraja Goswami

Srila Raghunatha dasa Goswami é um eterno associado de Chaitanya Mahaprabhu e também de Krishna, mas nos passatempos de Mahaprabhu ele mostra o sadhana-bhajana para alcançar os estágios devocionais elevados de bhava e prema. Se um sadhaka deseja sinceramente envolver-se em bhajana para alcançar a associação direta de Bhagavan sem demora – talvez em apenas um ou dois nascimentos – ele deve se envolver em bhajana da mesma forma que Raghunatha dasa Goswami fez. Mas fazer esse tipo de bhajana é muito, muito difícil. Ele deixou sua casa e família, envolveu-se em um bhajana muito rigoroso, passou os seus últimos dias sem comer e nada, apenas chorando dia e noite em separação divina – tudo isso seria muito difícil para nós. Mas para aqueles que realmente desejam prema, não é tão difícil.

Este mundo é um reflexo do mundo espiritual, portanto, há alguma semelhança entre eles. Se vermos este mundo como um local de instrução em vez de um local para diversão, nós seremos beneficiados. Aqueles que se abrigam sinceramente nos pés de um guru aceitarão tal instrução, mas nem todo mundo é capaz de aceitá-la. Dattatreya compreendeu que este mundo é um local de instrução, e por isso ele aceitou vinte e quatro gurus. Quando realmente compreendemos os vinte e quatro gurus mencionados, vemos que o mundo inteiro é nosso guru. Por que é dito que há vinte e quatro gurus? Porque não há nada em toda a existência a partir da qual não podemos aceitar algumas instruções. Para uma pessoa inteligente, todos os objetos do mundo fornecem algum tipo de instrução.

Há aqueles que podem argumentar que o mundo é uma prisão repleta de misérias ilimitadas.

tavad ragadayah stenas
tavat kara-griham griham
tavan moho ’nghri-nigado
yavat krishna na te janah
Srimad-Bhagavatam (10.14.36)

Para aqueles que não são devotos de Sri Krishna, a perplexidade do apego material atua como algemas e grilhões que os vinculam à prisão de maya.

Mas o mundo material não será uma prisão para aqueles que não se deixam enfeitiçar por ele. Aqui, raga significa apego material, que é como um ladrão e é a causa de nossa escravidão. Se esse apego for removido, será possível alcançar a liberação. A este respeito, Mahaprabhu disse a Raghunatha dasa Goswami:

sthira hana ghare yao, na hao vatula
krame krame paya loka bhava-sindhu-kula
Shri Chaitanya-charitamrita (Madhya-lila 16.237)

Sri Chaitanya Mahaprabhu e Sri Raghunatha dasa Goswami
Sri Chaitanya Mahaprabhu e Sri Raghunatha dasa Goswami

Agora, volte para casa e mantenha-se na vida familiar. Não comporte-se irracionalmente. Eventualmente, você conseguirá atravessar o oceano da existência material.

Se fosse possível alcançar Bhagavan apenas deixando suas casas, muitas pessoas as deixariam por não conseguirem conviver com outras pessoas, ou até mesmo por pobreza ou motivos similares. Mas elas alcançariam a associação de Bhagavan apenas indo para outro lugar? Ele não pode ser alcançado pelo simples abandono de uma casa ou família. Se alguém o faz em um estágio imaturo, isso será muito prejudicial para o seu bem-estar, e sua condição poderá ser ainda pior que a de um materialista comum. Bhagavan é alcançado somente através do abandono de apegos materiais e do envolvimento em bhajana genuíno. Por isso, Mahaprabhu disse a Raghunatha dasa Goswami, “Agora, retorne para sua casa e seja paciente, e quando for o momento certo, você automaticamente conseguirá abandonar tudo.” Não há nada no mundo material que seja inerentemente mal, trata-se apenas de uma questão de utilização adequada ou inadequada.

antare nishtha kara, bahye loka-vyavahara
acirat krishna tomaya karibe uddhara
Shri Chaitanya-charitamrita (Madhya-lila 16.239)

Externamente, você deve se comportar de uma forma normal com seus familiares, mas internamente deve ter nishtha. Então, Krishna o liberará em breve.

Mas ter nishtha é algo fácil? O que é nishtha? Ser resoluto, fixo. Se há uma firme confiança de que tudo que é dito pelo Guru, Vaisnavas e sastras é correto, isso é chamado shraddha. Quando esse shraddha torna-se firme, ele é chamado de nishtha. “Eu desistirei da minha vida, mas eu jamais deixarei o bhajana de Bhagavan. Seja vivendo em minha casa ou em qualquer outro lugar, eu sempre estarei comprometido em bhajana” – tal resolução é chamada de nishtha. A fim de honrar essa instrução de Mahaprabhu, Raghunatha dasa Goswami retornou para casa e começou a tomar harinama e a estudar as escrituras, enquanto ao mesmo tempo executava seus deveres mundanos. Eventualmente, sua nishtha aumentou mais e mais, e após alcançar a misericórdia de Nityananda Prabhu, conseguiu deixar permanentemente sua casa. Ele havia tentado partir anteriormente, mas não teve êxito. Porém, Bhagavan viu o seu desejo interno e por isso tomou as providências para que ele partisse.

Quando Bhagavan vê que há um desejo sincero dentro de nós, Ele faz de tudo para irmos até Ele. Caso contrário, mesmo que tentemos tomar as providências necessárias, não conseguiremos praticar bhajana adequadamente, e eventualmente, caíremos. Por isso Bhagavan toma as providências para nós, tal como Ele fez para Gopa-kumara no Sri Brihad-bhagavatamrita. Na forma de chaitya-guru no coração, Ele vê o que é necessário e nos envia o diksha-guru e o shiksha-guru. Quem deu para Raghunatha dasa Goswami a companhia de Haridasa Thakura? Raghunatha dasa Goswami o encontrou por sua própria vontade? Essa providência foi tomada por Bhagavan. Haridasa Thakura costumava visitar a casa de Raghunatha dasa Goswami – por que? Por que ele precisava ir lá? Haridasa Thakura era um renunciante supremo; ele cantava diariamente três lakhas de harinama. Portanto, ele via o amor natural e a devoção que o jovem Raghunatha dasa nutria por Bhagavan, por isso ele ia à sua casa e o ensinava como fazer harinama. Logicamente, Raghunatha dasa tinha o samskara anterior de uma alma perfeita, mas aqui vemos como Bhagavan toma as providências necessárias para que o sadhaka tenha a associação de uma grande personalidade. E Ele também enviou Yadunandana Acarya, um discípulo de Advaita Acarya, para que se tornasse o diksha-guru de Raghunatha dasa.

Festival Panihati Ciriadadhi Mahotsava, organizado por Sri Raghunatha dasa Goswami
Festival Panihati Ciriadadhi Mahotsava, organizado por Sri Raghunatha dasa Goswami

sthane sthitah shruti-gatam tanu-van-manobhir
ye prayasho ’jita jito ’py asi tais tri-lokyam
Shrimad-Bhagavatam (10.14.3)

Mesmo enquanto permanecem em suas respectivas posições sociais, as almas afortunadas recebem a oportunidade de ouvir hari-katha de grandes personalidades, e tornando-se inspiradas a dedicarem seus corpos, mentes e palavras, conquistam o inconquistável de outra forma por qualquer um nos três mundos.

Bhagavan tomou essa providência para Raghunatha dasa, e dentro de um curto período de tempo uma intensa avidez surgiu em seu coração e ele pensou, “Como obterei a associação direta de Bhagavan? Que tipo de sadhana-bhajana devo realizar?” Então ele foi para Panihati onde recebeu o darshana de Nityananda Prabhu. Sob a ordem de Nityananda Prabhu, Raghunatha dasa organizou um grande festival; e através do poder de sua meditação, Nityananda Prabhu convidou Mahaprabhu a comparecer. Assim que Raghunatha dasa recebeu o darshana dos dois irmãos honrando prasada juntos, seu desejo aumentou ainda mais. Então, Nityananda Prabhu colocou seus pés de lótus sob a cabeça de Raghunatha dasa e disse, “Agora todos os seus obstáculos desaparecerão.” Pela misericórdia de Nityananda Prabhu, ele conseguiu deixar sua casa e viajou até Puri, onde refugiou-se aos pés de Mahaprabhu. Nessa hora, Ele lhe deu outra instrução:

Sri Raghunatha dasa Goswami
Sri Raghunatha dasa Goswami

‘mane’ nija-siddha-deha kariya bhavana
ratri-dine kare vraje krishnera sevana
Shri Chaitanya-charitamrita (Madhya-lila 22.157)

“Uma alma perfeita pensa internamente dia e noite no serviço à Krishna em Vrndavana, e Swarupa Damodara o ensinará essa atividade muito especial.” Pessoalmente, Mahaprabhu não deu muitas instruções a Raghunatha dasa, mas Ele o entregou a um do Seus associados eternos, de quem recebeu todas as instruções. E o que Swarupa Damodara lhe ensinou? A executar o elevado padrão de bhajana que ele próprio fez.

Swarupa Damodara compôs slokas descrevendo a posição ontológica de Mahaprabhu, e também manteve um diário descrevendo os passatempos diários de Mahaprabhu. Por exemplo, ele escreveu que em uma noite, quando as ondas de bhava fluíam fortemente através do coração de Mahaprabhu, Ele de alguma forma conseguiu passar por três portas aparafusadas. Ele confundiu o oceano com o rio Kalindi, e pensando que as ondas eram devido às atividades de Krishna com as gopis, Ele saltou dentro do oceano. Flutuando cada vez mais longe, Ele entrou na rede de um pescador em Arkatirtha. Quando o pescador levou os devotos até Mahaprabhu, eles viram que todas as Suas juntas haviam se deslocado, Seus membros estavam todos alongados e ele estava enrolado em uma forma redonda. Esse é um sintoma de mahabhava. Isso não acontecerá nos estágios de prema, sneha, mana, pranaya, raga ou até mesmo anuraga. Às vezes, isso não acontecerá nem mesmo em mahabhava, e sim somente nos estágios mais elevados de rudha, adhirudha, madana e citra-jalpa. E isso pode não surgir nem mesmo em citra-jalpa, que é onde estava Srimati Radhika, na loucura da separação divina, enquanto conversava com uma abelha sobre Krishna. Não encontramos nenhuma declaração na qual Ela exibe os sintomas que Mahaprabhu ali exibiu.

Swarupa Damodara registrou esses passatempos em seu diários e relevou todos eles a Raghunatha dasa Goswami. Posteriormente, Raghunatha dasa os revelou a Krishnadasa Kaviraja Goswami. Murari Gupta, que é uma encarnação de Hanuman, também manteve um diário. Mas devido ao fato dos seus sentimentos serem dasya-rasa, ele considerou outros passatempos de Mahaprabhu mais saborosos e, portanto, os descreveu. Swarupa Damodara era a própria Lalita, por isso em sua poesia ele descreveu mahabhava e as condições mais elevadas de Mahaprabhu. Vejam que excelente providência Mahaprabhu tomou para Raghunatha Goswami: Ele o encaminhou até Swarupa Damodara, que lhe ensinou tudo isso. Se alguma vez recebermos uma oportunidade tão boa, devemos vê-la como tendo sido providenciada por Bhagavan. Para um sadhaka especialmente sincero, Ele tomará tal providência. Porém, aqueles não tão ávidos, não receberão essa boa fortuna.

CMGN
Sri Chaitanya Mahaprabhu e Sri Nityananda Prabhu

Primeiramente, Mahaprabhu instruiu Raghunatha dasa a permanecer em casa, e essa instrução está relacionada à vaidhi-bhakti. A instrução posterior – de que uma alma perfeita se lembra profundamente de Krishna dia e noite – estava no nível de raganuga, e Raghunatha dasa harmonizou ambas em sua vida. Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Prabhupada também deu instruções relacionadas à vaidhi-bhakti, tais como instruções para arcana. enquanto que ao mesmo tempo extraía os sentimentos de raganuga a partir da poesia do Srimad-Bhagavatam. Ele combinou ambas em sua pregação neste mundo. Independentemente das pessoas serem qualificadas ou não, Prabhupada aceitava a todos. Anteriormente, havia a restrição de que somente aqueles especialmente qualificados podiam deixar suas casas e famílias e se comprometerem em bhajana, mas todos receberam essa ótima oportunidade de Prabhupada Ele criou uma escola na qual mesmo os desqualificados podiam aprender, e gradualmente progredir. Caso contrário, não teríamos a qualificação necessária para fazer parte dessa linha. Porém, ele abriu a porta para todos.

Atualmente, a sociedade vem se degradando. Os jovens não honram as convenções da sociedade e nem aceitam a orientação de seus pais, tal como antigamente. Às vezes, envolvem-se com más companhias e se tornam ladrões e dacoits, e torna-se quase impossível se corrigirem e encontrarem o caminho correto. Mas Prabhupada criou escolas e centros em Mayapura e, em toda a Índia, para que esses garotos pudessem se juntar a eles. Talvez, eles tivessem apenas um pequeno gosto pela vida espiritual, mas ele viu o seu potencial de eventualmente sentirem completamente tal sabor. Ali eles aprenderam tudo e fizeram progressos substanciais em direção ao bhajana puro, alguns até mesmo se tornaram brahmacharis. Aqueles que assim desejavam, podiam após algum tempo retornarem para suas casas, casar-se e continuar realizando bhajana; Prabhupada não impôs nenhuma restrição quanto a isso. Desta forma, a missão de Mahaprabhu espalhou-se por toda a Índia.

Enquanto Mahaprabhu permaneceu neste mundo, Raghunatha dasa Goswami permaneceu próximo a Ele, e após o Seu desaparecimento, Ele ficou tão perturbado que parou de se alimentar. Em um curto período de tempo, Swarupa Damodara, Raya Ramananda e Gadadhara Pandita também deixaram este mundo. Por de repente tudo parecer vazio em Puri, todo os devotos restantes partiram. Tudo aquilo que era anteriormente muito querido por Raghunatha dasa, agora lhe causava dor como se fossem espinhos. Sua condição era similar a dos residentes de Vraja quando Krishna partiu para Mathura. Enquanto Krishna ali esteve, os sakhas e sakhis amavam muito Nanda-bhavana. As gopis amavam o Gopi-ghata do Yamuna porque ali elas iam se encontrar com Krishna. Elas amavam Govardhana porque havia muitos belos jardins e kunjas onde faziam guirlandas de flores para Krishna. Elas iam alegremente até esses locais, mas quando Krishna partiu para Mathura, Nanda-bhavana parecia vazia e sem vida. A lembrança de Krishna pelas gopis tornou-se tão intensa que elas não queriam mais permanecer ali, e qualquer local mirado por elas fazia com que se afogassem em vipralambha-rasa. Não era mais preparada nenhuma refeição, os utensílios permaneciam espalhados por todo o lugar e havia teia de areia por todo o canto. Para quem elas iriam cozinhar? Mãe Yasoda quase ficou cega em decorrência da separação. Em uma tentativa de esquecer Krishna, Nanda Baba partiu, mas não havia nem um local em Vraja que o permitisse se esquecer dEle. Tudo ali O lembrava.

Samadhi de Raghunatha dasa Goswami no Radha Kunda
Samadhi de Raghunatha dasa Goswami no Radha Kunda

Após Mahaprabhu deixar este mundo, os devotos em Puri se sentiram da mesma maneira. Para Raghunatha dasa, ir até o Gambhira era como adentrar um incêndio, e ele chorava dia e noite. Esse é o verdadeiro bhajana, e até que se alcance esse padrão, é apenas abhasa, ou a sombra do verdadeiro bhajana. A menos que experimentemos tais sentimentos intensos de separação de Krishna, do guru e dos Vaisnavas, não conseguiremos adentrar o bhajana verdadeiro. O próprio Mahaprabhu demonstrou isso: Ele lamentava o tempo todo, “Onde Eu posso encontrar Vrajendra-nandana? Para onde Ele foi?” Ele chorava dia e noite, sentindo todo o impacto da separação divina.

Às vezes, também choramos, mas por qual motivo? Porque acabamos de receber alguma indicação de que nossos apegos materiais e desfrutes foram arrancados de nós. Dentro de nós deve haver um intenso sentimento de separação de Mahaprabhu, de Sri Radha e Krishna, e se não diretamente dEeles, então do nosso próprio guru. Mas nós não temos nenhuma experiência destes sentimentos do mundo superior, pelo contrário, apenas desejamos felicidade material. Porém, nós pertencemos exclusivamente a Eles, e com essa compreensão devemos abordar esta linha de devoção. Portanto, primeiro deve haver um profundo apego por bhajana, e então por bhajaniya, aqueles que estamos adorando. Em nosso estado condicionado, não estamos tão preocupados com o canto diário dos números de voltas prescritas como estamos com coisas do tipo, “O que comerei? Onde morarei?” Mas como Raghunatha dasa Goswami executava bhajana? Sua única ansiedade era: “Como farei bhajana? Como posso ter certeza de que esta vida não está perdida, e como alcançarei Bhagavan nesta vida?”

Aqueles que aspiram raganuga-bhakti, a vida de Raghunatha dasa Goswami é muito instrutiva, e se conseguirmos assimilar em nossas vidas até mesmo um pingo de sua avidez por bhajana, certamente seremos bem-sucedidos. Independente de sermos renunciantes ou chefes de família, devemos ter um pouco da avidez por bhajana que ele tinha. Se a tivermos, todos nossos esforços automaticamente serão coroados com o êxito.

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Tradução: Madhukari Radhika Devi Dasi
Fonte: Pure Bhakti (extraído do livro “Sri Prabandhavali” de Sri Srimad Bhaktivedanta Narayana Goswami Maharaja)